Um intervalo para reflexão (se me permitem)
Não dá pra vacilar nem um pouquinho. Nem piscar os olhos: perdeu a atenção um segundinho só e a coisa toda explode. Se a gente ficar enterrado demais na nossa própria vidinha, no cotidiano imediato, com olhos apenas para o que se pode alcançar rapidamente, é muito provável que um susto de algum outro lugar nos paralise gravemente.
Confesso que a última semana foi assim: absorvido por preocupações pessoais, deixei de prestar atenção ao contexto em volta. Não pensei no que acontecia no bairro, na cidade, no mundo inteiro. E, sem mais nem menos, uma chuva de coisas me pegou desprevenido. Pra começar, a inacreditável notícia de mais um aumento na já inacreditável tarifa do inacreditável transporte coletivo de Florianópolis. Como somos um município especial, cheio das acrobacias administrativas mais inusitadas, temos dois preços para o mesmo serviço: com cartão, estávamos em 2,20 reais; sem cartão, 2,80. Isto, mesmo com o subsídio mensal de 500 mil reais fornecido pela prefeitura às empresas de ônibus.
Como nenhuma destas estratosféricas somas é suficiente para saciar a sede da rapaziada que manda na província, a tarifa sobe para 2,45 com cartão e 3,12 sem. Num canetaço surpreendente, tão afim à democracia praticada nesta polis, ainda tão Floriana. Temos agora uma tarifa definitivamente mais cara que o litro da gasolina, o que estimula qualquer ser humano racional e dono de um carro a ir deslocar-se em veículo individual motorizado, pois é mais barato. O que leva, por conseqüência, ao colapso das vias de transporte do município, como temos vivido todos os dias nos adoráveis engarrafamentos que, democraticamente, nos deixam todos parados.
Mas não é só: trabalhadores do serviço municpal de saúde, educação e outros setores receberam proposta de aumento de 3% no salário, parcelado em 3 meses. Anunciaram em estado de greve. Provavelmente a mídia empresarial local dirá que a população será prejudicada por mais esta greve irresponsável. “Todos os anos a mesma coisa, prejudicando a população que mais precisa do serviço de creches, postos de saúde, recolhimento de lixo”… Por que não invertemos a lógica e perguntamos como estão as condições de trabalho destas pessoas, como estão seus níveis de stress, se o aumento de salário se compararia aos benefícios que os donos de empresas de ônibus ou de grandes empreendimentos imobiliários locais recebem em forma de incentivos fiscais do município ou de facilitações na legislação? É só vermos o plano diretor proposto pela prefeitura de Florianópolis para entender que a Ilha, em sua visão, é um grande tabuleiro de “Banco Imobiliário”, onde não se vê gente, cultura, recursos naturais, mas sim dinheiro, dinheiro, e dinheiro.
Passemos, muito rapidamente, ao governo estadual: o governador Leonel Pavan, também conhecido como Gerard Depardieu, quer que Cacau Menezes (é, aquele mesmo) assuma a Fundação Catarinense de Cultura. Ao saber disso, Anita Pires, última gestora da pasta, pediu demissão na hora.
Pavan também quer descriminalizar o “bico” de policiais civis e militares, liberando-os para trabalhar em empresas de segurança privada nas horas vagas. É evidente que o trabalho excessivo não contribuirá em nada para a melhoria da segurança pública no Estado. Será que Pavan pensa o contrário? É esquisito: por que não aumentar o salário dos policiais, investir mais em qualificação, garantir seus direitos trabalhistas, ao invés de apostar no caos? Ainda está fresca a lembrança do aumento conferido por este mesmo governo do Estado para as altas patentes da polícia militar, deixando praças de fora. Ainda está fresca a perseguição promovida contra a APRASC, visando impedir que os soldados e cabos se organizem e reivindiquem seus direitos.
Ah, e por fim: Pavan quer um novo palácio de Governo. O Palácio da Agronômica é pequeno demais, a vista já não é tão agradável… Quer construir algo bem nababesco, pantagruélico, babilônico. Afinal, é algo de primeira necessidade para os cidadãos de SC atualmente. Ao mesmo tempo, doou terreno para um Centro Cultural da França bem ao lado da Casa d’Agronômica. Nada contra, mas fica a questão: será que o governo estadual tem tido o mesmo empenho em garantir o terreno do Campo de Aviação, na Av. pequeno Príncipe, no Campeche, para a construção do parque comunitário que já conta com projeto e tudo? Ou tem se mexido junto ao Ministério do Meio Ambiente para garantir a regulamentação da unidade de conservação na planície do Pântano do Sul? Me parece que não, e me parece que tudo isso é de uma ironia grotesca demais.
Haveria outras coisas. Mas todas caíram na minha cabeça ao mesmo tempo. Assim fica difícil. Há as matérias da revista “Veja” negando a importância da sociologia e da filosofia no ensino médio. Nesta mesma revista, a acusação aos antropólogos de estarem manipulando demarcações de terras indígenas: para provar isso, inventaram declarações que antropólogos respeitados mundialmente não teriam emitido em momento algum. Há também o escândalo da divisão dos lucros de 2009 da Casan. Há a construção da nova sede da prefeitura municipal bem abaixo da ponte Hercílio Luz….
Enfim, a coisa está feia. Mas há bons ventos, também: a rapaziada está se juntando, de forma bem organizada, pra protestar contra o aumento da tarifa; há greve na Eletrosul; há a greve dos servidores municipais. Em ano de eleição, é sempre bom que isso aconteça, nem que seja só para queimar o filme dos fantoches que querem se reeleger.
Se cada indivíduo ou grupo percebesse como pode incomodar, a coisa seria bem diferente. É sempre a velha história: juntos podemos mais.






12/05/2010 - 23:03
Leozão,
Parabéns pelo texto.
Mas te digo: quem ouve a Rádio Campeche já é incomodado ao menos com o monopólio da comunicação.
Tuas palavras tem que ir além, pois sintetizaram num curto texto a enorme fúria que mora na gente.
Abraço e bora pra luta!
14/05/2010 - 19:35
Borandá!
Que a terra já secou, borandá
É, borandá,
Que a chuva não chegou, borandá
Já fiz mais de mil promessas
Rezei tanta oração
Deve ser que eu rezo baixo
Pois meu Deus não ouve não
Deve ser que eu rezo baixo
Pois meu Deus não ouve não
Vou me embora, vou chorando
Vou me lembrando do meu lugar
É, borandá
Que a terra já secou, borandá
É, borandá,
Que a chuva não chegou, borandá
Quanto mais eu vou pra longe
Mais eu penso sem parar
Que é melhor partir lembrando
Que ver tudo piorar
Que é melhor partir lembrando
Que ver tudo piorar