Terno de reis: cultura de raiz
Jan 20th
Terno de reis do Campeche
Há 15 anos, preocupado com o desaparecimento das tradições açorianas, o incansável Gelcy Coelho, Peninha, então trabalhando no Museu da UFSC, onde conseguiu recuperar as obras de Cascaes, decidiu realizar um encontro de Terno de Reis. Afinal, essa tradição de andar de casa em casa, anunciando a boa nova, sempre foi muito arraigada à cultura local. Mas, com a migração e a especulação imobiliária, os costumes nativos foram perdendo força e a urbanização acelerada também foi suprimindo o hábito das visitas e das serenatas.
Então, buscando aqui e ali, o Peninha descobriu que, apesar de todos os problemas e do inchaço desordenado da cidade, a tradição sobrevivia em alguns bairros. Em pouco tempo já foi possível juntar vários grupos que ainda praticavam o milenar costume de anunciar a chegada de Cristo no dia seis de janeiro. E então surgiu o encontro dos Ternos de Reis que foi realizado com pompa e circunstância na catedral da cidade.
Hoje, o encontro segue acontecendo, já encampado pela Fundação Franklin Cascaes, responsável pela política cultural municipal. Assim, na semana do seis de janeiro, os ternos de reis dos bairros tradicionais se reúnem na praça central para lembrar e celebrar. E é coisa muito bonita de se ver porque centenas de pessoas acorrem para o centro numa alegria sem fim. Poucas vezes se pode testemunhar um encontro tão grande da gente nativa, do povo mais velho, ligado na tradição. As pessoas põem seu melhor traje e vêm, com a família inteira para honrar o “deus menino”.
As escadarias da catedral são insuficientes para tanta gente. E as senhoras da Barra da Lagoa, do Ribeirão, de Santo Antônio, do Sambaqui, do Campeche aparecem plenas na sua beleza. Um a um os ternos vão se sucedendo, numa cantoria bonita e aguda que, de tão alta, chega ao céu. Como explica Peninha, o terno de reis é uma tradição de anunciação. “Como antigamente não havia rádio, nem internet, era preciso que as pessoas andassem pela comunidade anunciando as coisas, um nascimento, um casamento, uma festa. E o dia de reis era um desses dias. Tinha que anunciar a chegada do salvador. E esse grupo é chamado de terno porque tem três vozes: a primeira, a segunda e a oitava. A oitava é essa voz agudíssima, bem alta, que era para chegar ao infinito”.
Na praça de Florianópolis o encontro chegou a sua 15 edição, com mais de 15 ternos se apresentando, alguns deles com gente bem jovem, o que mostra que apesar de toda a tecnologia de comunicação que está colocada a serviço das gentes, ainda há essa necessidade visceral do encontro face-a-face, da comunhão, da festa comunitária.
Televisão: fábrica de mais-valia ideológica
Jan 18th
por Elaine Tavares – jornalista
A televisão é uma usina ideológica. Gera milhares de megawatts de ideologia a cada programa, por mais inocente que pareça ser. E ideologia como definiu Marx: encobrimento da realidade, engano, ilusão, falsa consciência. Então, se considerarmos que a maioria da população latino-americana, aí incluída a brasileira, se informa e se forma através desse veículo, pensá-la e analisá-la deveria ser tarefa intelectual de todo aquele que pensa o mundo. Afinal, como bem afirma Chomsky, no seu clássico “Os Guardiões da Liberdade”, os meios atuam como sistema de transmissão de mensagens e símbolos para o cidadão médio. “Sua função é de divertir, entreter e informar, assim como inculcar nos indivíduos os valores, crenças e códigos de comportamento que lhes farão integrar-se nas estruturas institucionais da sociedade”. Não é sem razão que bordões, modas e gírias penetram nas gentes de tal forma que a reprodução é imediata e sistemática.
Um termômetro dessa usina é a famosa “novela das oito”, que consolidou um lugar no imaginário popular desde os anos 60, com a extinta Tupi, foi recuperado com maestria pela Globo e vem se repetindo nos demais canais. O horário nobre é usado pela teledramaturgia para repassar os valores que interessam à classe dominante, funcionando como uma sistemática propaganda que visa a manutenção do estado de coisas. É clássica, nos folhetins, a eterna disputa entre o bem e o mal, o pobre e o rico, com clara vinculação entre o bem e o rico. Sempre há um empresário bondoso, uma empresária generosa, um fazendeiro de grande coração, que são os protagonistas. E, se a figura principal começa a novela como pobre é certo que, por sua natural bondade, chegará ao final como uma pessoa rica e bem sucedida, porque o que fica implícito que o bem está colado à riqueza, vide a Griselda de Fina Estampa, a novela da vez.
Outro elemento bastante comum nas novelas é o da beleza da submissão. Como os protagonistas são sempre pessoas ricas, eles estão obviamente cercados dos serviçais, que, no mais das vezes os amam e são muito “bem-tratados” pelos patrões. Logo, por conta disso, agem como fiéis cães de guarda. Um desses exemplos pode ser visto atualmente na novela global. É o empregado-amigo (?) da vilã Tereza Cristina. Ele atua na casa da milionária como um mordomo, cúmplice, saco de pancadas, dependendo do humor da mulher. Ora ela lhe conta os dramas, ora lhe bate na cara, ora lhe ameaça tirar tudo o que já lhe deu. E ele, premido pela necessidade, suporta tudo, lambendo-lhe as mãos como um cachorrinho amestrado. Tudo é tão sutil que não há quem não se sinta encantado pelo personagem. Ele provoca o riso e a condescendência, até porque ainda é retratado de forma caricata como um homossexual cheio de maneios, trejeitos e extremamente servil.
Mas, se o servilismo de Crô pode ser questionado pela profunda afetação, outros há que aparecem ainda mais sutis. É o caso da turma da praia que, na pobreza, hostilizava Griselda e, agora, depois que ela ficou rica, passou para o seu lado, vindo inclusive trabalhar com a faz-tudo, assumindo de imediato a postura de defensores e amigos fiéis. Ou ainda a relação dos demais trabalhadores com os patrões “bonzinhos”, como é o caso do Paulo, o Juan, o homem da barraquinha de sucos, e o Renê. Todos são “amigos” e fazem os maiores sacrifícios pelos patrões, reforçando a ideia de que é possível existir essa linda conciliação de classe na vida real. O grupo que atua com o cozinheiro Renê, por exemplo, foi demitido pela vilã, não recebeu os salários, viveu de brisa por um tempo e retomou o trabalho com o antigo chefe por pura bem-querença. Coisa de chorar.
Nesses folhetins também os preconceitos que interessam aos dominantes acabam reforçados sob a faceta de “promoção da democracia”. O negro já não aparece apenas como bandido, mas segue sendo subalterno. No geral faz parte do núcleo pobre, mas é generoso e sabe qual é o “seu lugar”. É o caso do ético funcionário da loja de motos. Um bom rapaz, que, no máximo, pode chegar a gerente da loja. As pessoas que discutem uma forma alternativa de viver aparecem como gente “sem-noção”, no mais das vezes caricaturada, como é o caso da garota que prevê o futuro, a mulher negra que era bruxa, o rapaz que brinca com fogo ou os donos da pousada que em nada se diferem de empresários comuns, a não ser nas roupas exotéricas. Ou o personagem do Zé Mayer, numa antiga novela, que via discos voadores, não aceitava vender suas terras e, no final, “fica bom”, entregando sua propriedade para a empresária boazinha que era dona de uma papeleira.
Os homossexuais também encontram espaço nas novelas, dentro da lógica da “democratização”, mas continuam sendo retratados de forma folclórica, como é o caso do Crô, na novela das oito, ou do transexual da novela das sete. Já o índio, como é invisível na vida real, tampouco tem vez nas tramas novelistas e quando tem, como a novela protagonizada por Cléo Pires, vem de forma folclórica e desconectada da vida real. E assim vai…
Gente há que fica indignada com os modelos que as telenovelas reproduzem ano após ano, mas essa é realidade real. Os folhetins nada mais fazem do que reforçar as relações de produção consolidadas pelo sistema capitalista. Até porque são financiados pelo capital, fazendo acontecer aquilo que Ludovico Silva chama de “mais-valia ideológica”. Ou seja, a pessoa que está em casa a desfrutar de uma novela, na verdade segue muito bem atada ao sistema de produção dessa sociedade, consumindo não só os produtos que desfilam sob seu olhar atento, enquanto aguardam o programa favorito, mas também os valores que confirmam e afirmam a sociedade atual. Prisioneira, a pessoa permanece em estado de “produção”, sempre a serviço da classe dominante. Assim, diante da TV – e sem um olhar crítico – as pessoas não descansam, nem desfrutam.
É certo que a televisão e os grandes meios não definem as coisas de forma automática. Como bem já explicou Adelmo Genro, na sua teoria marxista do jornalismo, os meios de comunicação também carregam dentro deles a contradição e vez ou outra isso se explicita, abrindo chance para a visão crítica. Momentos há em que os estereótipos aparecem de maneira tão ridícula que provocam o contrário do que se pretendia ou personagens adquirem tanta força que provocam um explodir da consciência. E, nesses lampejos, as pessoas vão fazendo as análises e podem refletir criticamente. Mas, de qualquer forma, esses momentos não são frequentes nem sistemáticos, o que só confirma a função de fabricação de consenso que é reservada aos meios. Um caso interessante é o do transexual que está sendo retratado na novela da Record, que passa às dez horas. “Dona Augusta” é nascida homem e se faz mulher, sem a folclorização do que é retratado na Globo. É “descoberta” pelo filho que a interna como louca. Toda a discussão do tema é muito bem feita pelos autores, sem estereótipos, sem falsa moral. Mas, é a TV dos bispos evangélicos, que, por sua vez, na vida real pregam a homossexualidade como “doença”. São as contradições.
De qualquer sorte, a teledramaturgia brasileira deveria ser bem melhor acompanhada pelos sindicatos e movimentos sociais. E cada um dos personagens deveria ser analisado naquilo que carrega de ideologia. Não para ensinar aos que “não sabem”, mas para dialogar com aqueles que acabam capturados pelo véu do engano. Assim como se deve falar do que silencia nos meios, o que não aparece, o que não se explicita, também é necessário discutir sobre o que é inculcado, dia após dia, como a melhor maneira de se viver. Pois é nesse entremeio de coisas ditas, malditas e não ditas, que o sistema segue fabricando o consenso, sempre a favor da classe dominante.
Quem não gosta de samba…
Jan 15th
Rádio Campeche recomenda: Torresmo à Milanesa!
Este clipe faz parte do DVD do Grupo de samba Torresmo à Milanesa, dirigido por Pepe Pereira dos Santos. Segundo Pepe, é “uma Produção BO (baixo orçamento) mas realizada com todo o amor que temos pela Ilha de Santa Catarina de Alexandria e pelo samba…”
Clique aqui e assista ao clipe:
Marcelo Sete Cordas com o grupo Torresmo à Milanesa
Acesse o blog: http://grupotorresmoamilanesa.blogspot.com/
O grupo se apresenta semanalmente no bar Canto do Noel e apresenta um repertório para apaixonar amantes do samba. Este é o clipe produzido pela Onda-AV do músico e compositor Marcelo Sete Cordas. Com boa música e imagens da bela e linda ilha de Santa Catarina.
Oficina Audiovisual na Rádio
Dec 19th
No domingo, dia 19 de dezembro, aconteceu a primeira parte da Oficina de Audiovisual, promovida pela Câmara Clara (Instituto de Memória e Imagem) na Rádio Campeche. Participaram 18 oficineiros que, durante as próxima semana farão entrevistas em vídeo com pessoas da comunidade, na segunda etapa da oficina. A terceira etapa será a edição do material (áudio e vídeo) produzido pelas oficinas realizadas no Ribeirão da Ilha ( Banda da Lapa – Ponto de Cultura), na Armação (Baleeira – Ponto de Cultura) e no Campeche (Rádio Campeche / Toca Ponto de Cultura).
Veja algumas fotos da oficina, feitas por Sig Schaitel.
7o Balaio: festa bonita!
Dec 19th
O 7o Balaio Cultural da Rádio Campeche, que aconteceu no dia 10 de dezembro, foi uma belíssima festa. Apesar da chuva que caiu durante a semana, o sol apareceu no sábado e a comunidade pode curtir as oficinas, as atrações musicais e as saborosas pizzas do balaio. A Rádio Campeche agradece a todos que contribuiram para a realização desta fabulosa festa comunitária.
Veja aqui algumas fotos, feitas pelo Tomás. Se vc também fez fotos do evento, compartilhe conosco!
II Festival Cultural das Areias
Dec 17th
Ouça aqui:
Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.
Eleições AMOCAM
Dec 16th
Escute aqui:
Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.
Atenção moradores do Campeche!
No próximo sábado (dia 17) ocorre a eleição para a nova diretoria da AMOCAM (Associação dos Moradores do Campeche).
A votação será feita na sede da Rádio Comunitária Campeche, das 10h às 11h.
É obrigatório levar Carteira de Identidade e Título de Eleitor. O eleitor deve estar há mais de 2 anos morando e votar na zona eleitoral do Campeche.
Conte-me o Filme
Dec 15th














Comentários